Em 2020, quem se cala sobre autoritarismo está consentindo
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Em 2020, quem se cala sobre racismo e autoritarismo está consentindo

Em 2020, quem se cala sobre racismo e autoritarismo está consentindo

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O texto pode ser um pouco longo, mas pedimos encarecidamente que leia até o final. Ele é o resultado de uma indignação de nossa redação que vem atordoando nossas mentes e corações há algum tempo.

A primeira coisa a ser tratada ao iniciar esse texto é que somos um site de entretenimento. Não cobrimos política, não cobrimos ações policiais, mas cobrimos lançamentos de músicas, álbuns, produtos culturais além da vida dos artistas e celebridades. A segunda coisa a ser tratada é que nada disso tem importância quando vemos a redemocratização brasileira e direitos serem atacados: ela, muito jovem, com apenas 32 anos, é capaz de provocar inveja naqueles que flertam com o autoritarismo e não conseguem aceitar que o mundo deve ser um lugar plural, dotado de direitos para todos e todas independentemente de cor, gênero, religião ou orientação sexual. Durante essa semana, vimos a alegria de nossa comunidade com o lançamento do álbum de Lady Gaga por nos trazer bons sentimentos permeados das lembranças causadas pela sonoridade da época de um mundo em que não havia preocupações ou desilusões. Essa felicidade não foi capaz de durar mais que algumas horas porque a realidade na qual vivemos é capaz de destruir qualquer tipo de refúgio: estamos no meio da maior pandemia contemporânea e ainda assim vimos nas redes sociais a repercussão do assassinato de João Pedro Mattos, um jovem negro que morava no Salgueiro, em São Gonçalo, Rio de Janeiro e foi morto pela Polícia Civil, que invadiu sua casa e tirou sua vida com um tiro pelas costas. E em pouco mais de alguns dias, George Floyd, assassinado injustamente pela Polícia de Minneapolis, nos EUA ao ser asfixiado por um policial por cerca de nove minutos. Em 2018, todos ficamos consternados pelo assassinato da vereadora, ativista e defensora dos direitos humanos Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. 

Vale ressaltar que a violência apontada aqui, na figura de João Pedro Mattos, George Floyd e Marielle Franco não são casos isolados e desconexos da realidade. Estes são só alguns exemplos do racismo que se faz presente em nossa sociedade, pelos mais diversos meios, como a brutalidade policial que atinge corpos pretos quase que diariamente. 

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Em 2020, quem se cala sobre racismo e autoritarismo está consentindo
Da esquerda para a direita: João Pedro Mattos, Marielle Franco e George Floyd. Reprodução: Internet

Essa combinação de fatores nos desperta os mais variados sentimentos: raiva, indignação, desconfiança e medo. Por inúmeras vezes esses fatores sequestram nossa perspectiva de futuro e esperança. É por isso que precisamos cada dia mais lutar por um mundo melhor no qual podemos nos expressar e ser quem somos, por mais que alguns grupos queiram sequestrar nossos direitos. Nesse contexto, sentimos a necessidade de expor em nosso veículo, por mais que já esteja exposta no dia a dia, a crescente onda autoritária, principalmente assumida pelos governos de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil. Desde o início da última década, células autoritárias vêm novamente crescendo no mundo inteiro e tomando espaços democráticos como cadeiras em Câmaras Municipais, no Congresso e até mesmo na Presidência. Muitas dessas células bebem das ideologias que compõem o nazismo, o fascismo e o supremacismo branco, como uma ideia disfarçada de unidade, mas que na verdade procura segregar pessoas por debaixo dos panos por meio da violência, truculência e poder bélico.

O racismo promovido de forma estrutural pelas instituições policiais não é algo recente: as polícias militares no Brasil, formadas durante a época do império, eram treinadas para defender a Coroa Portuguesa e manter a ordem segundo os interesses da própria. Consequentemente, usava de sua força para violentar e aniquilar a população escrava no país. Pouco mais de cem anos depois, os resquícios de uma sociedade baseada em moldes escravocratas ainda são muito presentes.

Se você nunca se perguntou o porquê de ter poucas referências de pessoas negras em posições de alto escalão, lhe dizemos: esse é um resquício diretamente ligado a essa época. Quando a escravidão foi abolida no Brasil, o poder público não deu condições para que as populações fossem inseridas econômica e socialmente na população ativa, visto que numa posição de escravidão você não recebe salário, não podendo acumular bens privados, nem recebe educação, não podendo ter qualificação para concorrer a cargos em postos de trabalho.

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Todos esses fatores se convergiram numa receita para marginalizar populações negras ao longo dos anos e perpetuar uma situação de opressão. Em alguns veículos mais tradicionais da mídia, é comum ver um discurso criado para perpetuar essa percepção, por vezes sendo reflexo direto das percepções que o racismo interfere às relações humanas.

Logo, esta marginalização se dá de forma tão forte e intrínseca a nossa sociedade que qualquer perfil de manifestação contra essa opressão hegemônica é pautada de forma negativa. Assim denominam os protestos como arruaça e baderna, reclamações e apontamentos como “mimimi” e vitimização. De forma a tentar inibir a voz da negritude e outras minorias quando apontam as injustiça de um sistema estruturalmente racista e preconceituoso.

De tal forma, é fundamental ressaltar que existem inúmeras diferenças entre os protestos a favor do povo preto que acontecem no Brasil, nos Estados Unidos e no resto do mundo contra a brutalidade e violência exercida sobre esse grupo social, além dos que agem em defesa de um Estado Democrático de Direito e lutam contra a ascensão do fascismo. Assim, não há comparação cabível com grupos de pessoas que furam a quarentena para se divertir ou para se manifestarem contra instituições democráticas, flertando com o fascismo, racismo e movimento supremacistas brancos. Uma vez que o povo negro continua sendo morto mesmo se mantendo dentro de casa e, ainda que seja uma parcela que menos se infecta com o Covid-19, integra a porcentagem que mais morre por causa da doença. 

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Nesse momento, precisamos estar mais unidos do que nunca em prol de tornar o mundo um lugar mais feliz para todas as populações, sem exclusões. São anos de luta por pessoas que passaram pelo mundo para que pudéssemos estar aqui, nesse meio, informando a você, ainda que de forma corriqueira, sobre o reflexo da história no nosso dia a dia. É necessário que influencers, veículos e comunicadores desde os de pequeno aos de grande alcance se mobilizem, usem a sua voz que lhes foi dada democraticamente por essas pessoas que lutaram pelos dias de hoje.

Um cartaz com os escritos: “Justiça ou violência. Vocês decidem.” – foto por Rosa Pineda
Um cartaz com os escritos: “Justiça ou violência. Vocês decidem.” – foto por Rosa Pineda

Sabemos que a escrita não é o fim e o meio principal para que todos esses problemas, citados ao longo desse editorial, sejam solucionados. Entretanto, encaramos essa conversa como uma maneira de lançar luz sobre esses fatos obscurecidos por toda a violência que vem ocorrendo nos últimos tempos, numa tentativa de informar, e de certa forma a facilitar a compreensão do mundo a nossa volta, demonstrando nossa posição e olhares sobre esse evento.

Vamos deixar alguns links para que você possa fazer também sua parte no campo virtual:

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1 cor e 80 tiros: Por que precisamos lembrar que vidas negras importam? — Mídia Ninja

Card com vários links úteis, incluindo doações e informações para entendimento e educação —  #VidasNegrasImportam

Doações para o combate ao coronavírus nas favelas —  Mães da Favela

Petição por justiça para o menino João Pedro Mattos —  Change.org

Petição por justiça para David McAtee — Change.org

Reportagem sobre o ato realizado em São Paulo a favor da democracia e contra a ascensão do fascismo —  Alma Preta

Cotas raciais no Brasil – histórias e reflexões — Mídia Ninja

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